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AFRODITE

8 de dezembro de 2013 em Poesia

 

AFRODITE

És digna de poesias,
De versos apaixonados.
De sonetos, quadras, haicais…
De música, de prosa,
De toda e qualquer obra
Que por ventura, cara senhora,
O coração inspirado,
Possa delirando criar!
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por fontinha

O atelier

20 de outubro de 2011 em Poesias,Artigos,Contos,

O Eduardinho ainda não tinha percebido o que acabava de acontecer e já eu lhe ouvia as palavras de queixume,

– E continuei com o meu trabalho, tinha o meu corpo poisado sobre a tela e na mão um pincel, um pano pendurado no ombro esquerdo e o avental de plástico protegia-me das tintas e dos suspiros da noite,

Saboreava o meu cachimbo coisa rara nos últimos tempos e que vou assiduamente continuar a fazer todas as noites e antes de adormecer, e chegavam até mim os sons engasgados do Eduardinho,

– Foda-se maldito telemóvel,

E fiquei sem perceber,

– Na tela começava a acordar uma mulher de cabelo curto e loiro e nos lábios percebi que cresciam gladíolos e no sorriso habitava uma gaivota pincelada de azul e amarelo, estava nua, e sobre as coxas o mar à minha espera, e com o pincel mergulhado no azul-marinho, retoque aqui retoque acolá, lá consegui desviar o mar das coxas da mulher e ela mexeu-se e rodou o corpo para junto das rochas onde se escondiam as algas da noite e os malmequeres da manhã,

O Eduardinho bate à porta do atelier e entra como se fosse um furacão depois de uma borboleta bater as asas na Indonésia,

Olho-o e percebo que a mulher nua da tela se cobria com alguns pedacinhos de nuvem,

– O que foi Eduardinho?

O que foi?

– E no lábio inferior sílabas de sangue, e comecei a pensar que alguma coisa tinha acontecido, o Eduardinho a explicar-me que estava a cortar as unhas dos pés, o pé direito estacionado sobre um banquinho de fórmica e na mesa o telemóvel que quase sempre nunca toca porque ninguém lhe liga,

Ninguém me liga O que quer?

– E eu não quero nada mas há quem queira alguma coisa e não é assim que se tratam Os Munícipes,

Os Munícipes têm de ser tratados com toda a educação independentemente de usarem ou não fato e gravata queixava-se o Eduardinho,

– Aprende a falar Rapaz,

O pé direito estacionado sobre um banquinho de fórmica e na mesa o telemóvel que quase sempre nunca toca porque ninguém lhe liga, mas quis o destino que o telemóvel começasse a tocar e o Eduardinho com a euforia do toque lança repentinamente a mão sobre a mesa e desequilibra-se e tomba de queixos sobre a mesa,

E os dentes fixam-se ao lábio inferior,

– Apetece-me rir mas não tenho coragem,

A voz rouca que sobressai do gaiolo O que quer?

– Eu? Eu não quero e nunca quis nada,

Respondo ao Eduardinho que nada posso fazer, que me deixe em paz porque estou a trabalhar e que se alguma coisa eu possa fazer apenas é dar-lhe umas pinceladas com tintura de iodo no lábio,

Nem penses responde-me ele, isso nunca,

– Então boa viagem e a porta de entrada é a serventia do atelier,

O que quer? A voz saltitante nas paredes do gaiolo,

Nada, eu nada,

Mas há quem queira,

– Coloco novamente os olhos na tela e o Eduardinho abandona o atelier da mesma forma que entrou,

Furioso,

– E a mulher começa a comer os pedacinhos de nuvem e só depois percebi serem de algodão doce, e por mais pinceladas que eu desse na tela faltava alguma coisa, recomecei de novo,

Tinha o mar, tinha gaivotas e tinha a mulher e as nuvens de algodão doce, e tinha as rochas e as algas e os malmequeres e gladíolos,

E o que quer?

– E claro digo eu em voz alta Faltam as estrelas,

E comecei a pintar estrelas na tela até me cansar de ouvir a voz saltitante contra as paredes do gaiolo,

O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer?,

A mulher levanta-se da tela, poisa sobre os ombros pétalas de malmequer, e quando chega até mim abraça-me e beija-me,

E enquanto a beijava e a acariciava ouvia a voz do Eduardinho em Ais e o rapaz do gaiolo,

O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer? O que quer?,

– E eu não quero nada,

Ela pega-me na mão e leva-me para o divã junto à janela do atelier, e começam as brilhar as estrelas na tela.

 

(texto de ficção)

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por fontinha

As flores de néon

4 de outubro de 2011 em Poesias,Artigos,Contos,

Dormir no chão e sentir os teus braços poisados no meu peito, e pela janela finíssimos fios de luz mergulham no teu corpo, ausentas-te de mim e começas a voar,

As borboletas da noite que brincam nas flores de néon e sinto os teus braços a evaporarem-se do meu peito, o teu corpo eleva-se e as tuas asas mergulhadas no arco-íris soltam-se da sombra do candeeiro da sala (não sei se existe um candeeiro na tua sala mas quem ama os livros e a leitura precisa de um candeeiro), e as tuas asas mergulhadas no arco-íris soltam-se da sombra do crucifixo pendurado na parede (e talvez não um crucifixo na tua sala), e as tuas asas mergulhadas no arco-íris soltam-se da sombra dos meus braços, e finco os meus olhos no teto do céu,

As flores de néon mudam de cor, vermelho azul amarelo verde azul azul laranja e invisível,

– Cansadas e cansadas e cansadas nós as flores de néon,

Ausentas-te de mim e começas a voar sobre os edifícios encalhados no cais de embarque da cidade, centenas de sombras à espera de um ferro velho e os caixotes com o que sobejou (meia dúzia de nada) amontoam-se na esperança e o ferro velho olha-me,

– Olá miúdo,

E Cansadas e cansadas e cansadas nós as flores de néon, e os meus bracinhos prendem-se à cintura da minha mãe, ela chora e finge que sorri,

– Estás a chorar mãe? E que não diz-me ela A chorar eu? Foi um inseto que embateu no meu olho,

E percebi que chorava, e percebi que quando olhava para longe se despedia da infância e de vinte anos de cacimbo e de vinte anos de capim e de vinte anos de mar e de vinte anos de Mussulo,

E de vinte anos de nada,

– Olhas-me enquanto atravessas a janela,

Dormir no chão e sentir os teus braços poisados no meu peito, e de vinte anos de nada, e pela janela finíssimos fios de luz mergulham no teu corpo embebido nas gotinhas de suor da noite,

– Olá miúdo Oiço a voz do ferro velho e as lágrimas da minha mãe Estás a chorar mãe? E que não diz-me ela A chorar eu? Foi um inseto que embateu no meu olho,

Uma gaivota que poisa no guindaste enferrujado pelo silêncio das ruas despidas de gente e vestidas de dor e sofrimento e cansaços e desilusões,

– Vinte anos de nada,

Puxava de um cigarro e sentia os soluços do miúdos a tombarem sobre os caixotes de madeira adormecidos na despedida, e se despedia da infância e de vinte anos de cacimbo e de vinte anos de capim e de vinte anos de mar e de vinte anos de Mussulo,

– E de vinte anos de flores de néon,

Que mudavam de cor conforme a tosse da âncora do ferro velho, vermelho azul amarelo verde azul azul laranja e invisível,

Até que se confundiam com o mar,

Os caixotes balançavam na maré quando o ferro velho em pedacinhos começou a erguer-se e as ruínas da cidade a diminuírem, e desapareceram dos olhos do miúdo,

– Olá miúdo,

As ruinas da cidade que se misturam nos gritos do guindaste enquanto o ferro velho à boleia de um rebocador envelhecido nos lábios do mar e caminha e caminha e desaparece no cacimbo, e vinte anos de nada,

– Os meus calções enrolam-se nas tuas asas mergulhadas no arco-íris e soltam-se da sombra dos meus braços finíssimos fios de luz que abraçam o teu corpo, e finco os meus olhos no teto do céu,

Beijos grandes fofinhos a ver se ficas um doce de homem quando as borboletas brincam nas flores de néon,

Pego numa estrela e peço um desejo,

– Desejar-te eternamente,

Silabas da noite.

 

(texto de ficção)